Ciência & Vida

VINHOTERAPIA | Estudos revelam que o resveratrol, uma substância encontrada no vinho, age no combate de inúmeras doenças

Um brinde à saúde

Ele sempre esteve intimamente ligado à evolução da medicina e a cada dia surgem novas safras de estudos que comprovam os benefícios do vinho para a saúde. Do uso como desinfetante e remédio para a cura das feridas dos gladiadores até a utilização no tratamento antienvelhecimento e no combate às doenças cardiovasculares, muita coisa mudou, mas uma se manteve intacta desde então: além de ser uma bebida apreciada por boa parte das pessoas, o vinho é um líquido terapêutico. Não é à toa, já há até uma definição para seus benefícios: a vinhoterapia.

Dos cremes à base de uvas Sauvignon, Merlot e Malbec aos perfumes de champanhe, há uma série de produtos que podem ser encontrados em centros de beleza e até “wine spas”. Isso mesmo, já há em alguns países spas especializados em tratamentos à base de vinho. Neles, são utilizados cremes para  esfoliação e hidratação, além de banhos de espuma e sementes de uva, com o objetivos de retardar o envelhecimento da pele.

“A vinhoterapia se desenvolve a passos largos. Os estudos vêm mostrando que ele previne o envelhecimento das células, hidrata a pele e até tonifica os músculos, e uma das novidades mais recentes são os ‘wine spas’”, conta a endocrinologista e nutróloga Sandra Gordilho, que vem desenvolvendo um estudo no qual faz um levantamento da literatura científica sobre os benefícios do vinho.

Os agentes encontrados nesses produtos são os polifenóis e bioflavonóides: antioxidantes naturais que previnem o envelhecimento da pele e a protegem da agressão do meio ambiente. Mas a boa performance dos vinhos no corpo vem sendo atribuída mesmo a um antibiótico natural chamado resveratrol, que, segundo os especialistas, contribui para que a pele se torne mais elástica e jovem.

“O resveratrol é produzido naturalmente pela videira para proteger os cachos de uvas contra fungos e umidade. Como ele é encontrado principalmente na casca e na semente das uvas, os vinhos brancos contêm geralmente quantidades menores de resveratrol”, explica a nutróloga Sandra Gordilho.

A possibilidade de o resveratrol ser, de fato, uma arma contra algumas doenças chamou a atenção não só dos cientistas, mas também da indústria farmacêutica. A GlaxoSmithKline pagou US$ 720 milhões pelo laboratório Sirtris, que desenvolve medicamentos baseados em moléculas análogas à do resveratrol.

Não é à toa, a cada dia novas pesquisas surgem sobre essa molécula. Aqui no Brasil, estudos realizados pelo químico André Souto, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) – que há dez anos investiga os segredos da bebida - , revelam que os benefícios dessa substância vão além do combate ao envelhecimento.

Além disso, há uma excelente notícia para os brasileiros. Os tintos nacionais estão entre os vinhos com maior concentração dessa molécula promissora. Para chegar a tal conclusão, Souto analisou quimicamente 36 amostras de vinhos tintos produzidos no Brasil a partir de diferentes castas de uva. Em seguida, fez uma análise das concentrações de resveratrol, uma das 200 substâncias polifenóicas encontradas normalmente em cada cálice.

De posse dos números, comparou-os com as quantidades desse composto em rótulos de outros países e acabou descobrindo que, nesse aspecto, os vinhos nacionais só ficam atrás dos franceses. “Como o resveratrol é resultado de um sistema de proteção da planta, quanto mais agressivo o ambiente em que ela é cultivada, maior a quantidade de moléculas presentes na uva”, explica Souto.

Além da França e Brasil, os vinhos da Itália estados Unidos e Austrália são os que contêm maiores concentrações de resveratrol, respectivamente. No ranking brasileiro, os vinhos Merlot, Carbenet e Sauvignon Carbenet são os de maior concentração da molécula.

O método desenvolvido pelo professor de química da PUC foi considerado o primeiro no mundo a conseguir purificar a substância, deixando uma concentração de até 95%. Farmácias de manipulação brasileiras têm comercializado o resveratrol como suplemento alimentar, mas análises de Souto mostraram que permanecem menos de 10% da substância.

Na opinião do professor Souto, o resveratrol é uma supermolécula devido ao seu amplo espectro de benefícios à saúde. “Experiência realizadas com a molécula de resveratrol isolada mostram que ela atua como antioxidante, é um potente antiinflamatório, antiviral, além de ser um protetor contra as doenças cardiovasculares e o câncer”, enumera Souto.

Segundo um estudo publicado na revista Nature, o resveratrol aumentou a longevidade de leveduras, vermes e moscas em 70%. “A substância parece agir em diferentes organismos, dos mais simples, como a levedura do pão, aos mais complexos, como ratos e seres humanos, afirma o químico.

por Fabiana Mascarenhas

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FONTE: Jornal A Tarde
Salvador, domingo, 16/11/ 2008
C1 - Ciência & Vida

 

 


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